O Projeto de Pesquisa “Xisto Bahia, vida e obra: um novo olhar a partir de fontes documentais disponíveis” (XBVO), desenvolve, desde 2019, um trabalho de investigação coordenado por Luciano Caroso, professor e pesquisador do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Bahia. O Projeto tem contado com a colaboração de pesquisadores, professores e estudantes, e com o apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UEFS, através de fornecimento de bolsas de iniciação científica.
XBVO objetiva rever, criticamente, ampliando e consolidando com o que já está publicado, toda a gama de informações que se tem podido coletar, relacionadas à vida e à obra de Xisto, e que estejam disponíveis em fontes digitais de natureza variada como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, a Hemeroteca Digital do Centro de Folclore e Cultura Popular, o Sistema de Informações do Arquivo Nacional, o Internet Archive, o site de genealogia FamilySearch, entre várias outras bases de dados acessíveis eletronicamente. Por óbvio, XBVO também lança mão de pesquisas em arquivos físicos.
Xisto de Paula Bahia (Salvador, Bahia, 06 de agosto de 1841; Caxambu, Minas Gerais, 30 de outubro de 1894) foi ator, dramaturgo, cantor e compositor brasileiro que floresceu e se destacou no contexto do teatro musical nacional da segunda metade do século XIX. Foi aclamado, ainda em vida, pelo caráter nacional de sua atuação como ator, num momento em que o teatro brasileiro encontrava sua identidade por via das operetas, mágicas, revistas do ano, etc, que, embora baseadas no repertório europeu, eram adaptadas para os costumes e tipos brasileiros.
Como compositor e cantor, Xisto Bahia entrou para a História da Música Brasileira. Primeiro porque é reconhecido na historiografia como importante agente da construção da identidade musical do Brasil, tendo papel relevante na evolução da canção nacional, principalmente pela sua contribuição na composição e divulgação do lundu e da modinha, gêneros fundadores do que hoje chamamos Música Popular Brasileira (MPB). Depois, porque seu nome é bastante conhecido por ser o compositor do lundu “Isto é Bom”, música gravada pela Casa Edison em 1902, cantada por Manuel Pedro dos Santos, o Baiano (1870-1944), e considerada a primeira gravação de uma música no Brasil.
Sendo Xisto ator de teatro, personalidade relevante neste cenário na segunda metade do século XIX, há muitas informações sobre ele em jornais e periódicos dessa época: incontáveis chamadas para espetáculos dos quais participou, críticas e comentários sobre suas performances como ator e cantor nas revistas, operetas e peças cômicas nas quais atuava, anúncios de venda de partituras de músicas de sua autoria, menções, na condição de passageiro em embarcações de transporte marítimo, às viagens que fez pelo país, em estados como Amazonas, Pará, Maranhão, Pernambuco, Ceará, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, como ator agregado a companhias de teatro que rodavam o Brasil em apresentações, e até fatos corriqueiros de sua vida e não relacionados às suas atividades profissionais, que servem para efeito de contextualização num esforço biográfico.
Nosso trabalho vem obtendo significativos resultados no esclarecimento de fatos e enriquecimento de informações acerca da biografia de Xisto Bahia, com a elucidação de dúvidas e lacunas existentes e surgimento de muitas informações e dados nunca antes publicados sobre seu percurso, como a confirmação de suas efetivas datas de nascimento e morte, que antes eram matéria de controvérsia, a data de seu casamento com a atriz portuguesa Maria Victorina de Lacerda e a cronologia de suas viagens por todo país. Também vieram à tona muitos espetáculos desconhecidos nos quais Xisto atuou, alguns dos quais escritos pelo próprio ator e que não se tinha até então conhecimento, pela historiografia que trata de sua biografia. Menções a músicas atribuídas a ele e ainda não conhecidas, depoimentos e perfis escritos por jornalistas, teatrólogos e outros, sobre sua figura, além de muitas outras novidades biográficas e contextuais que lhe dizem respeito também foram encontradas.
As gravuras e fotografias de Xisto coletadas e catalogadas por XBVO possibilitaram uma abordagem iconológica que permitiu esclarecer algumas razões do seu envelhecimento precoce, além de lançar luzes sobre informações acerca de sua condição de saúde nos últimos meses de vida e de algumas das possíveis causas de sua morte, o que foi enriquecido com a localização de seu registro de óbito, que menciona uma causa mortis, embora em caráter inconclusivo. Também foi possível a percepção da utilização de técnicas de retoque de fotografias e intervenções e ilustrações que manipularam a aparência de Xisto Bahia, o que pretendia atenuar traços de sua fisionomia que apontam para uma etnia com características indígenas e/ou afrodescendentes.
O FamilySearch e outras bases eletrônicas como o Sistema de Informações do Arquivo Nacional nos possibilitaram fazer uma substancial pesquisa genealógica e agregar relevantes informações à biografia de Xisto, mas também à sua genealogia, o que nos trouxe conhecimento valioso e significativo de suas ascendência e descendência. Além do já mencionado registro de óbito, também localizamos seu registro de batismo, bem como os de três de seus irmãos. Outros tantos documentos localizados nos permitiram chegar a parentes vivos e fazer entrevistas remotas com estes, o que tem enriquecido ainda mais toda gama de informações acerca de Xisto Bahia, seus contextos familiar, social, cultural e histórico, e isto, acreditamos, possibilitará a construção de uma biografia mais ampla, detalhada e documentada.